sexta-feira, 23 de maio de 2014

Aguardando meu possível suicídio.

 Se me encontrarem, não diga que desisti, que fui fraco, que não aguentei. Já tenho experiência suficiente pra próxima vida. Não aguento o peso das escolhas sobre meus ombros. Sou escravo de minhas próprias escolhas. As consequências não vêm só. Vêm acompanhadas de todos os dedos apontados, todos os palavreados, todos os julgamentos, de todo mundo que decepcionarei se fizer a escolha que ninguém quer que eu faça.
 Sinto, neste momento, mais que nunca, a cobrança da família pra que eu encontre um rumo, que eu "dê um jeito na minha vida", que não faça mais cagadas. Já que todos eles não são perfeitos, e nem querem tentar, por que não descarregar esta cobrança toda no primeiro filho, neto, na esperança da família?
 Quero tantas coisas, e conquisto boa parte delas... Mas não cabe a mim a felicidade. Aprendi a conviver com a dor, o sofrimento e a infelicidade. Assim, quando feliz estou, mais feliz fico. Pois aproveito cada segundo deste momento raro, e que a propósito, não vejo há muito tempo.
 Quem é Jesus Cristo? O que é desejos da carne? O que é ser politicamente correto? O que é anti ético? Será mesmo que há um padrão de respostas pra todas estas perguntas? O quão profundo eu devo ir pra atingir a realidade suprema sem obter a tristeza? E o quão raso devo ficar imerso pra não ser um tolo? Existe sabedoria no meio termo? Dosagem de vida? Pequenos goles de vida pra não me chafurdar em prazeres que me fazem feliz, e consequentemente, não me afogar no ego e na ilusão de pureza? Mas pequenos o suficiente pra não morrer de sede? Por quê se questionar quando pode questioná-los?
 E se você morresse agora, quem choraria? Os mesmos que te cobrar? As bocas que poderia beijar? Os medos que poderia enfrentar? Os amores que te magoaram te trataram que nem lixo? As paixões que tratou como lixo? Quem? Quem choraria? Sua avó que agora está internada e que há muito teve sua saúde prejudicada por ti? Sua mãe que tanto se ausentou em sua infância e que agora faz de tudo pra recuperar o tempo perdido? Seu padrasto que tem o costume de nadar numa piscina de cevada, todas as noites antes de dormir, só pra não fazer as mesmas perguntas a si mesmo que tu se faz há anos, desde a primeira crise de depressão aos 13? Seus irmãos que aprenderam a lhe chamar de tio pela grande diferença de idade que tens? Seu pai? Que até hoje só sabe que se chama Marcos, pois é o que seu RG diz nas costas de sua foto 3x4?
 E se você morresse agora, acha mesmo que seu grafite, sua arte urbana, seus textos pseudo-poéticos, teus "amores" passados, os fãs de sua máscara física, de sua máscara virtual e até de tua faceta cotidiana, as voltas de skate que fez, os currículos que entregou, as entrevistas que passou, os eventos, baladas, festas, cursos técnicos, confraternizações de fim de ano, amizades de final de rolê, amores de metrô, filhos alheios, tentativas falhas de parar de beber, fizeram alguma diferença no mundo? No planeta Terra, que na imensidão do universo pode ser comparado a um mísero grão de areia, você realmente fez a merda de alguma diferença?
 Porra, acorda, a sua vida é só mais uma. E você não é especial pelo cabelo que tem. Pelo penteado que fez. Pelas roupas que usa. Pelo que consome, pelo que te consome, ou por quem lhe consome. Você é a mesma merda do mundo que faz de tudo pra chamar a atenção.
 E de quanto em quanto tempo você vai mergulhar em sonho atrás de sonho?
 Você é melhor do que aquele, por quê largou seus vícios? Ou por quê seu emprego lhe exige um traje formal? Ou pelo contrário, seu emprego lhe permite trabalhar de bermuda e/ou chapéu? Você está certo sobre sua vida?
 E então, quando eu me suicidar, não me pergunte o motivo. Por quê aqui, neste plano físico, qualquer motivo é fútil. E uma explicação, é só formalidade.

Um comentário:

  1. Cauê, nos perdemos no absurdo da vida, tomar consciência é trágico... Procuremos as lacunas sensitivas, a experiência nunca é vã !!
    com amor, abraços irmão!!

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