Despojei-me em meio ao estofado,
Ludibriei-me com suburbanos exaltados,
Sons de fogos e risadas que soavam como trilha sonora,
De foliões, desordeiros, gatunos, maconheiros, oportunistas e trambiqueiros.
De pierrots, colombinas, ciganas, odaliscas, paulistas e nortistas.
De chineses, italianos, portugueses, coreanos, turcos, e muçulmanos.
E ouço vindo lá debaixo um murmúrio baixo:
"Achas que não sou pura?" dizia a travesti a teu macho,
"És uma puta de uma puta, só acho, só acho!",
Disse eu de cima pra baixo de meu escritório.
"Quem ousas me ofender em meu território?",
Questionou "o vadia" num tom cheio de ódio.
"Fui eu, tua puta de sexo duvidoso!", disse,
Fazendo de minha janela meu observatório.
A puta meio-homem tirava sua sandália,
Enquanto eu um pouco atônito caíra na gargalhada.
Com seu calçado em mãos e muito puta, dizia a puta:
"Desces daí filho-da-puta! Tu não sabes quem sou,
Venhas e desfigurarei a face tua!"
No mesmo instante retruquei a bicha suja:
"Claro que sei! És uma bicha pé-rapada, que acha que és dona da Rua Augusta!
Tão escandalosa que merecia uma multa!"
O vadia retrucou mais algumas ofensas, como se não bastasse a boca já imunda,
Saiu retrucando aos ventos, prosas ainda mais chulas.
E lá se foi a travesti estúpida,
Murmurando ofensas, tirando a calcinha da bunda,
De tão bêbada se equilibrava no salto e caminhava destrambelhada.
Agora na sala, penso nesta comemoração indo-europeia tal,
Com uma pitada de humor negro até pode ser legal.
Mas com certeza, meu aval de soltura espiritual,
É descançar, escrever, assistir e ler, no meu feriado de carnaval.


