sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Capítulo 49, Venice

Há quem diga que envelhecer é uma questão de ponto de vista. No caso de Denyel, era exatamente isso. Como criaturas imortais, os anjos que vivem no céu, principalmente aqueles que quase nunca descem à terra, tendem a encarar o universo como uma constante, um painel cósmico em que mudanças acontecem, porém ao longo de eras. Para os seres humanos, contudo, a perspectiva é bem diferente. Coexistindo dia a dia com o mistério da morte, incertos sobre o destino por vir, os terrenos são, em oposição aos celestes, dotados de um incrível apetite por realizar todos os seus desejos, todas as suas obras, no curto período de uma vida. O resultado é uma sociedade em permanente transformação, incapaz, às vezes, de apreciar os próprios triunfos. Sendo um anjo, o corpo físico de Denyel continuava sempre jovem, mas agora ele compreendia, melhor que qualquer outro, o significado da palavra "envelhecer". Era frustrante, com o passar dos anos, a sensação de que nada seria como antes, de que os grandes valores foram jogados por terra, de que sangue fora derramado a troco de nada. Nesse particular, a década de 70 teve um amargo gosto de desilusão, de fim de festa, de luzes se apagando, especialmente pra aqueles que presenciaram os anos 40. O baile de gala se encerra, dando lugar às batidas da discoteca, à cultura do prazer sem limites, desprovida de ideologia ou princípios.

Nenhum comentário:

Postar um comentário